A Reinvenção do Volante

O caminho para uma condução totalmente autónoma está pavimentado de boas intenções e uma série de potenciais colisões. Deverão as seguradoras esperar um aumento dos custos dos sinistros?

 

O Jack conduz a 130 km/h pela autoestrada A9 na Alemanha. Mantém uma velocidade constante a uma distância respeitosa em relação ao veículo da frente, movendo-se facilmente entre o intenso tráfego. No entanto, Jack é teimoso e recusa-se a deixar outro carro entrar na sua via, apesar do sorriso simpático do condutor. O Jack não compreende expressões faciais; não foi programado para as reconhecer. O Jack não é humano de todo: Jack é um protótipo da Audi, semi-automatizado e isto é um test drive. Christoph Lauterwasser, managing director do Allianz Center for Technology (AZT), foi passageiro voluntário no test drive automatizado, ao viajar ao lado de um participante de testes qualificado. “E senti-me muito seguro”, diz Lauterwasser.

 

Exemplos como o Jack vão-se tornar cada vez mais comuns nas nossas estradas, à medida que o que era anteriormente conhecido como o reino da ficção científica, depressa se aproximará da realidade. Os primeiros carros totalmente automatizados deverão ser apresentados por volta de 2021-23 (dependendo de questões legais e tecnologia). Em 2035, cerca de um terço de todos os veículos deverão ser parcial ou totalmente automatizados, de acordo com o estudo realizado pela consultora Oliver Wyman.

 

Do primeiro carro conduzido até ao primeiro carro sem condutor

 

Tem sido uma longa viagem desde que Karl Benz apresentou o primeiro carro movido a gasolina, em 1885. Ainda temos um caminho a percorrer: a condução autónoma será apresentada gradualmente em vez de numa única ação. Nos próximos 20-25 anos, o tráfego será composto por uma mistura de veículos autónomos e conduzidos por humanos, à medida que fazemos a transição para a condução autónoma. Rolf Behling, Head of Automotive Engineering do Centro de Inovação Automóvel da Allianz Worldwide Partners, refere-se a seis níveis de automação. A primeira etapa é a condução manual, enquanto a segunda é a condução assistida. Atualmente estamos na terceira etapa, mais especificamente a automação parcial.

 

Sistemas avançados de assistência ao condutor, que vão desde o estacionamento automático até à prevenção de colisões, já estão a ser incorporados em muitas marcas automóveis. A partir de 2018, podemos esperar automação condicional, onde um sistema de condução automático pode assumir o controlo em condições específicas, mas os seres humanos podem intervir quando necessário. A esta etapa seguirá a automação completa com um sistema de condução automático, capaz de lidar com todos os aspetos da condução sob todas as condições de estrada e climatéricas.

 

Behling espera que os veículos autónomos, numa fase inicial, façam parte de veículos de frota, como autocarros de empresas ou redes de transporte como a Uber, que podem operar num ambiente onde a infraestrutura necessária pode ser gerida. O Centro de Inovação Automóvel da Allianz já está a cooperar com uma empresa de autocarros, no desenvolvimento e operacionalização de uma frota de autocarros autónoma. A Allianz garante, em parte, os testes da frota, obtendo desta forma informações sobre o desenvolvimento de sensores e software. Os veículos particulares estão a seguir este caminho.

 

Dilema Moral

 

Independentemente dos avanços tecnológicos, certamente não podemos permitir que um computador decida como agir numa situação de vida ou morte? Deverá desviar-se para evitar uma criança que corra na estrada ou proteger os ocupantes do carro? Claramente que existem uma série de dilemas éticos difíceis que precisam de ser abordados antes de ser dada total autonomia aos veículos.

 

E quanto às preocupações de segurança: certamente que até mesmo o software mais sofisticado não é infalível? Potenciais problemas de segurança para carros autónomos incluem sensores afetados por mau tempo ou a obstrução da visão de um carro por obstáculos, como prédios num cruzamento. “O que aconteceria, por exemplo, se houvesse neve na estrada a tapar as marcas rodoviárias?” pergunta Lauterwasser. Ainda é necessária mais inteligência para um carro automatizado compreender tais situações antes de ser introduzido no mercado de massas.

 

Novo itinerário para o seguro

 

O seguro automóvel também vai ter que se adaptar com as mudanças de cenários. De acordo com Carsten Krieglstein, Head of Liability at Allianz Global Corporate & Specialty (AGCS), a tecnologia de condução autónoma provavelmente irá contribuir para um declínio na aquisição de veículos em detrimento de frotas automóveis, carsharing e táxis sem motorista como parte de conceitos de mobilidade. As seguradoras podem afastar-se de fornecer milhões de apólices de seguro automóvel individual, anualmente, aos condutores para, em vez disso, fornecer grandes apólices adquiridas por fabricantes, proprietários de frotas e operadores.

 

Com certeza, a complexidade dos sinistros irão aumentar a par com a tecnologia de condução autónoma, diz Wolfram Schultz, Global Practise Group Leader Liability, Heavy Industry and Manufacturing, AGCS. No futuro, não será apenas acerca do condutor, o proprietário do automóvel e o fornecedor de mobilidade, mas também acerca do fabricante do equipamento original, dos fornecedores de primeira linha, dos fornecedores de hardware e software e do fornecedor de rede, centros de dados e outras partes envolvidas.

 

Haverá uma transferência crescente para a responsabilidade do produto nos fabricantes de automóveis, exigindo que as seguradoras desenvolvam conhecimentos técnicos e não se baseiem apenas em dados históricos e no perfil dos condutores para a fixação de preços. A indústria de seguros deverá esperar um aumento dos custos de sinistros, diz Schultz. “Os automóveis totalmente autónomos têm tantos sensores e tecnologia que precisam de ser ajustados ou verificados, que até mesmo as pequenas reclamações podem vir a custar muito mais do custam atualmente. Devido ao elevado nível de tecnologia envolvida, a pequena oficina de automóveis ao virar da esquina não será capaz de lidar com esses reajustes, pois não consegue pagar o equipamento de teste e arranjo. Isto, para além que o custo dos materiais, irá conduzir a custos adicionais de sinistros.”

 

Para uma condução totalmente automatizada, será necessário uma mudança no ambiente legal de forma a permitir que um veículo seja responsável por um acidente. A Convenção de Viena sobre o Tráfego Rodoviário, um tratado internacional sobre o tráfego rodoviário e a segurança, foi alterado em março para incorporar as tecnologias de assistência ao condutor, mas ainda especifica que o condutor deve permanecer no controlo e ser responsabilizado por qualquer dano. “Num futuro próximo, ainda teremos o conceito de condutor e isso apenas faz sentido se o condutor for capaz de conduzir o veículo,” diz Lauterwasser. Por agora, os condutores precisam de manter as suas mãos no volante e os olhos na estrada.

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